sábado, 7 de novembro de 2015

Carta pra Gio

Josh reuniu uma boa parte de suas forças para escrever essa carta.
Escreveu durante dias, quando sua lucidez se fazia mais forte.
Gio a leu pela manhã após recebe-la das mãos de seu amado na noite anterior. 
Naquele dia, dormiram se lembrando de tantas coisas boas por que passaram juntos. Da janela, a lua e as estrelas regavam as memórias deles.
Josh a pediu para abrir a gaveta do criado mudo ao lado dela. Havia uma carta amassada e até meio suja com a letra característica dele. Ela reconheceu na hora o esforço que ele fez pra lhe dar aquela carta.
"Não precisava, meu bem..."
"Sim, precisava", ele sorriu.
Ela ia abrir, mas ele pediu que ela lesse outra hora, naquele momento queria apenas abraçá-la.
Dormiram abraçados como sempre fizeram.
Quando amanheceu, Gio saiu do quarto silenciosamente, fez seu café, e se sentou em sua cadeira com apenas o som dos pássaros para lhe acalentar. Os dias estavam pesados, ultimamente. Sabia que Josh estava cada vez mais fraco e isso lhe tirava as forças também.
As palavras que se seguiram aqueceram seu coração; quando se levantou com os olhos marejados, era a mulher que Josh conheceu muitos anos antes.

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Bom dia, Gio!

Eu sei o quanto você ama as manhãs e o quanto separa para elas as melhores e mais importantes coisas pra você.
Eu realmente espero que esteja lendo essa carta pela manhã, porque também é seu melhor momento, quando os raios iluminam seus cabelos escuros e brilhantes. Quando o sol se presta a iluminar outra estrela que é você.
É com essa imagem que escrevo essa carta.
Se estiver lendo pela noite, pare. Se estiver chorando, pare também.
Nenhuma das duas coisas combinam com sua efusiva e radiante alegria.
Porém, não pare por causa da minha letra, você sabe que a sua sempre salvou a nós dois. Perdoe-me pela letra ruim, mais um vez. Tem se tornado cada vez maior o peso de uma caneta.
Peço-lhe mais esse esforço de decifrá-la, penso que valerá a pena. Preciso tanto lhe transmitir mais essas palavras.

Gio, eu a amei com toda a força da minha razão. Me lancei em seus braços com toda a intensidade que meus pensamentos me permitiram. Nunca, jamais me arrependi, porque você foi tudo em minha mente por todos esses anos. O motivo dos meus atos e das minhas ações.
Casaria de novo com você pelo seu sorriso. Pelo seu rosto adorável ao rir de minhas palavras, mesmo quando não queria fazer graça.
Pelas palavras calorosas que sempre trocava comigo em meus invernos mais rigorosos.
Casaria e a escolheria de novo e de novo, para viver de novo e de novo tudo de bom que você me trouxe.

Penso se fui capaz de retribuir pelo menos um pouco.
Por você, lutei batalhas. Entrei em guerras, na maioria, dentro de mim.
Por você, fui mais longe. Andei sempre um quilômetro a mais.
Você nunca me pediu isso, mas eu sempre soube que as lutas valiam a pena.
Encontrei você, minha borboleta, e por você lutaria ainda mais para me manter ao lado de sua fragilidade e lhe proteger.
Sei que não fui sempre capaz disso; todavia, meu amor, saiba que lutei para ter você sempre segura e minha.

Você sempre foi o nosso coração.
Sempre foi a nossa delicadeza. O toque doce que faltava.
A singeleza que afagava sem pedir nada em troca.
A calma que a todos tocava.
Quando me faltava a bondade, você me regava com ela.
Quando eu queria me fechar, você gentilmente me chamava para fora.
Quando me faltava a emoção, você com seu sorriso trazia tudo de belo que os sentimentos podem nos oferecer.
Você sempre me complementou.
Obrigado.
Seria capaz de passar a minha eternidade lhe observando. Descobrindo todas as nuances da sua caridade nata.
Ver de novo como com tanto carinho você com outros conversa.
Perceber como os outros você considera. Presenciar a atenção que a outros dá, os olhos fixos e atentos, ouvidos perceptivos.
Um dia a mim você se dedicou.
Sabe que primeiro me apaixonei pelos seus olhos. Eles me penetraram, me senti lido, não invadido de uma forma ruim, porque você me via e me percebia.
Sinto-me tão sortudo por a mim você também ter percebido.
Minha flor, tão preciosa, obrigado por ter me achado e me atentado.

Hoje, quando a minha mente falha e você tão cuidadosa olha por mim, e mantém sua mente lúcida, eu é quem sou só emoções.
Minhas memórias intermitentes não me permitem racionalizar mais. Os pensamentos vagueiam e se tornam esparsos.
É agoniante, mas não, não se preocupe, meu bem.
Tenho percebido, nos meus poucos momentos de lucidez como esse, que você, na verdade, está aqui dentro de mim, não na minha razão mas em meu coração.
Por isso, meu amor, agora que tudo com o que sempre me agarrei me falta, lembre-se que você está sempre segura no lugar que a ninguém mais pertenceu.
Te levo comigo por onde eu for.
Te levo comigo nessa viagem que a minha mente se recusa a fazer.
Te levo no centro das minhas emoções. Sinta-se guardada.

Amo você. Para sempre.

Seu Josh