quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A Vida de Ima: Um Conto de Muitas

Aquela manchinha na parede me lembra muito você. Disforme, ali estática por tantos dias. Uma aranha que eu já deveria ter matado que se estabeleceu em teias vacilantes e quase imperceptíveis? – Teias estas que esperam as minhas mãos para as envolve-las em sua pegajosidade e me trazer nojo. Ou sujeira que merece ser coberta com tinta? Sujeira que merece ser esfregada com meus punhos não tão resistentes como antigamente, quando o adeus final eu lhe dei?
Hoje, sei quem eu sou e, possivelmente, por isso a mancha do canto da parede não me incomoda tanto. Fica ali no alto pra me lembrar você mesmo, e um eu já passado e distante.  Ima, esse é meu nome. Ímala, como você me chamava esperando que algum dia eu me aborrecesse com o apelido. Nunca aconteceu. Nenhum dia se quer você me chamar de Ímala me irritou. Achava íntimo e nosso. Posso dizer apenas por mim. Mas sei das suas intenções, porque você me contou, com seus olhos desesperados, quando eu andei e para trás nunca mais olhei.
Você, Robert, achou que eu jamais me levantaria de novo. Todavia, viu-me levantar para de você me afastar. Para de nossas lembranças me recuperar e poder prosseguir.
Robert e Ima. Robert e Ímala. Ima e Robert. Carregamos por tanto tempo esse dueto. Numa música, que hoje vejo, tão descompassada. Numa melodia tão pouco graciosa, porém forte o suficiente para nos embalar e, digo, enganar.
Robert e Ima, que engraçada essa combinação. Lembro de ter rido das iniciais várias vezes. R & I. RI. E eu sorria. Às vezes, ainda gargalho dessas inicias cômicas, cheias de graça, se juntas. Robert, tão pouco usual em nosso país. Ima, menos ainda.  O destino jogou seus dados e juntou o improvável para depois rir também de quando a combinação se desfez. R sem I perde a graça. Passam a compor outras palavras mais pomposas e necessárias, mas menos hilariantes.
Não sou uma ingrata e penso que foi bom sim. De maneira clichê, foi eterno por um tempo. E me desculpo pela fraqueza que demonstrei quando deveria ter sido mais forte. Nesse conto da minha vida, entrego as chaves dos portões que levam ao que nos aconteceu.
Foi quando acordei naquele dia de chuva intensa e o notei absorto em seus pensamentos. Longe de mim em algum lugar, escondido. Naquele momento, percebi que era o fim e, nem precisaria do que ocorreria depois para lhe dizer que era o final do riso e o começo de muita dor.
Você sempre soube que era força para mim. E voluntariamente a oferecia para as minhas ações. Eu, gratamente, aceitava. Isso gerando uma dependência ruim. Desfigurando-me e tirando de mim qualquer vestígio de poder que eu podia um dia ter tido. 
Você levantou cedo. Ainda perdido em seus pensamentos, deu-me tchau para começar seu dia de executivo. Alinhado em seu terno eu o vi pela última vez como o costumava ver. Lindo, moreno alto, sagaz e mordaz são algumas das características que vi naquela manhã. Tirava de mim o que queria. E me dava o que era seu para me preencher. Como um saco cheio de coisas não minhas, eu caminhava. Perigando a qualquer momento ficar vazia para sempre se o perdesse. Sem filhos, vivia seus desejos. Você me dizia que eles nos atrasariam.  Eu o segui. Aceitei. E fiquei só todos os dias em que você me enchia. Só perdendo o tempo que precisaria para engravidar sem o medo da idade.
Você me deu tchau e um beijo frio. Questiono-me se ele sempre não foi frio. Sim, senti um calafrio de mau presságio quando você me beijou. Arrepiei. Você também terá sentido? Se sentiu, fingiu tão soberanamente bem que não. Eu deixei de acreditar em intuição, porque você dizia que era bobagem. Mas ela me estapeou no fatídico dia. Acordou-me e me disse para correr. Não obedeci e por isso me arrependo. Deveria ter corrido naquele momento. Ter feito as malas. Ter ido viver. Tantas coisas que abandonei por você. Por quê?
Perguntei se você queria café na agonia de mantê-lo mais um pouco. Ou,  tolamente, foi na esperança de nos aquecer com esse líquido tão comum a nós? Ou ainda, melhor dizendo, comum só a você, Robert? Você me ensinou a bebê-lo, lembra? Amargo e forte, para acordar. Nunca me acordou de fato.  Dormi todo esse tempo.
Ofereci mesmo assim. Você ironicamente aceitou. Por que aceitou? Permita-me perguntar. Essa é a única pergunta que ainda gostaria de lhe fazer. Sobre o depois não tenho qualquer curiosidade, porque é ridiculamente doloroso. Fechei o livro que lia. Uma das poucas coisas minhas de fato: o hábito de ler. A única coisa que ainda carrego comigo daqueles tempos que me são tão vazios de calor. Coloquei o livro sobre a pequena mesa redonda de vidro ao lado da poltrona. Levantei-me e senti seu olhar quando caminhei para a cozinha. Olhei para trás para lhe arguir com o olhar e um gesto se não viria, e você me atravessava com o olhar mais penetrante que já senti vindo de você. Olhava-me de fato. Analisando-me. Constrangendo-me. Sentia vontade de me contar? Ser sincero uma vez, por completo e, talvez, tudo reverter?
Lembro do torpor que senti, da queimação no rosto.
Eu corei. Meu Deus, eu corei. E como me envergonho. Você, então, sorriu no canto da boca. Será que pensou que tudo ficaria, então, bem? Você disse que ficaria mais tarde, embora eu não tenha acreditado em uma só palavra.
Fui para a cozinha seguida de você. Contou-me sobre o que faria naquele dia. Grandes negociações. Contratos para assinar, gente para coordenar. Eu ouvi, mas sem aquela admiração que sempre tive, devo-lhe dizer. A minha consciência se mexia e parecia querer pesar. O que eu tinha feito até ali, além de me entregar? Quanta coisa vazia, quanta falação sem felicidade verdadeira.
Passei o café. Dei-lhe uma xícara. Estaria você também querendo ficar? E se tivesse ficado? Prefiro não imaginar.
Fixei meus olhos na fumaça que saía de seu café, ele quente e aconchegante, agora tão distante do que outrora vivemos. Bruxuleante, trazendo-me ainda mais momentos de uma suposta iluminação. Insights únicos, diria algum mentor. Representando toda a mudança efusiva que ocorreria naquele dia mesmo.
Eu não podia imaginar que seria tão repentino. Por mais que tenha imaginado em momentos de devaneios, as sensações ativaram cada poro do meu ser para algo que poderia acontecer naquela manhã apenas.
Passaram-se dez minutos e você se levantou. Sorriu largamente. R & I. Olhou-me novamente, e me beijou de novo. Foi seu adeus? Não se incomode, está certo, sem mais perguntas.
Quem o olhou sair dessa vez fui eu. Terno azul escuro. Bem passado e com caimento perfeito em você. Calças com ótima costura. Cabelo bem penteado. Tudo isso eu tentei capturar para, sei lá, ter como lembrança do que antes foi meu escudo. No entanto, naquele instante só pensei que se molharia.
Chovia e muito.      
Você saiu mesmo assim. Não vacilou nem por um segundo Era mais um sinal de que, talvez, você devesse ter ficado e me contado. De noite, com grandes chances, você nem me veria de novo.
Fiquei sozinha boa parte do dia, após sua saída. Em guerra com o que deveria pensar, passei aquelas horas restantes de minha suposta paz. Li mais um pouco de “O Bosque das Ilusões Perdidas” de Alain-Fournier. Um livro com tantos conflitos emocionais, único livro de um autor que morreu tão jovem e me deixou constrangida por imaginar como ele viveu tanto em tão pouco. Alain morreu por seu país, e eu tenho morrido pelo quê?
Minha vida agora me passa como um filme depois de sua saída, por isso parei de ler. Não consigo tirar os olhos do livro da minha vida. Não tenho morrido por nada, nem mesmo por você, Robert. Sinto-me controlada e regulada, amarrada e impedida de até mesmo por você morrer. Mórbido, mas é importante nem tanto morrer por algo, mas se viver com ideais para se morrer deixando algo. Não precisa ser grande, para muitos. Precisa, no entanto, ser algo, mesmo que só você saiba ao morrer. Você aparentemente conseguiu, não deixou a vida passar. E eu? Aliás, duvido até do seu real sucesso nessa questão. Porque não sei se você pode chamar de legado o que fez até hoje.
No filme da minha vida, você chega cedo. Seu sorriso valia a pena ser seguido. Trazia calor para o meu peito e luz para meu pensamento. Viciante, não consegui me afastar. Amamos-nos? Você me amou, Robert? Eu sei que eu perdi minha identidade. Não reclamo, perdi o controle. Você guiou meus passos. Saí de meu emprego, entreguei-me a nossa vida. Entreguei-me a nossa casa.
Fomos felizes? Não sei. Você foi?
Seu beijo frio ficou comigo toda a manhã e começo de tarde quando recebi aquele telefonema que me fez perder todo o calor da vida. Ainda antes, preparei um almoço pensando em nós. Cortei as peças do frango. Os pedaços de batata em formato de pequenos cilindros, embebidos em vinho branco. Seu prato preferido. Você nunca mais o comerá preparado por mim. E isso me dói.
Sou agora um redemoinho de emoção e confusão. Ao me aproximar da narrativa daquela hora, chego a sufocar. Choro. Prometi não chorar por isso, porém minha força se perde por causa da voz daquela criança desesperada.
Comi calmamente. Sozinha um prato que era nosso. Cada pedaço indicando um relógio gastronômico progressivo para o fim de nossas vidas. O fim do nós. O fim do RIso. Lavei, então, os pratos. Como me sinto inútil e pouco vivida. Como deixei?
Eu preciso me questionar. Eu preciso aprender. Aprender que ninguém deve me dizer como caminhar. Você achou que eu jamais me recuperaria. Que eu era a frágil. Pediu até desculpas. Desculpas que não reparam em nada tudo o que perdi por você. Enganada, frustrada, amargurada foi como você me deixou. Todavia, segui em frente e, repito, não olhei mais pra trás e nada mais de você eu sei.
Uma relação de controle não pode ser amor, pode? Você era carinhoso em certo modo? Pensava que tanto poder deixava os homens menos sensíveis e aceitava algumas de suas rugosidades.
Na verdade, a quem quero enganar? Você me batia. Não na forma tradicional, melhor dizer antes que pensem muito mal de você. Nunca contei isso a ninguém. Bateu-me tantas vezes com palavras e gestos. Destruindo minha confiança para então a apenas a você eu entregar minha esperança. Você me chamava de fraca, mas só você precisava ser forte. Feita para a casa, porque você foi feito para enfrentar as ruas.       
...
Então, leitor, aqui deixo Ima descansar.
O relato dela é fiel às suas emoções. Impressionante, não?
A história fica ainda mais impressionante agora, quando a retiro de cena para não lhe deixar amargurada e poder contar, quase imparcialmente, o que ocorreu.
Vi com profundo pesar sua dor. Assim como vi em muitas outras.
Ima recebeu uma ligação naquele dia. Foi terrível.
Uma criança discou o primeiro número que encontrou no celular de Robert após o acidente. A criança pressionou o número sob a palavra Amor do celular de Robert.
_ “Alô, aqui quem fala é Ima”.
_“Soo-coo-rro”, Ima ouviu uma criança de voz fraca gaguejar.
_ “Meu pai, ele está desmaiado”, Ima tremeu.
_ “Onde vocês estão?”, conseguiu perguntar após o torpor. “Consegue me dizer?”
_ “Não seii, dói muu-ii-too”, a criança começou a chorar.
Ima então ouviu sirenes. Ouviu vozes gritando e perguntando se estavam bem, as pessoas do carro.
E tudo foi muito rápido, após isso. Viu-se assinando papéis no hospital.
Viu seu esposo deitado numa cama desacordado.
Firme como uma rocha, conheceu aquela que era a mãe do menino.
Acompanhe, leitor, apenas:
_ “Oi, chamo-me Ana, sou mãe do José. Que susto tudo isso. Fui procurar a administração do hospital para assinar uns papeis e me disseram que uma moça havia já assinado pelo meu marido e pelo meu filho”.
Ima mal se mantinha em pé. Ana não sabia de nada.
_ “Ah, sim. Acompanho de perto a vida do Robert. Como sua secretária, posso assinar por ele. Desculpa o incômodo”.
_ “Poxa, muito obrigada. Não sou casada oficialmente com ele. E ele viaja muito. Hoje, quando resolveu sair com nosso filho, acontece isso. Parece que ele perdeu o controle do carro sem explicação”.
_ “Uma fatalidade, certamente”.
_ “Senhoras, desculpa intrometer. Seu Robert acordou, deseja falar com a senhora Ima”, disse um médico de olhar cabreiro.
Ana, claro, viu-se ressentida, coitada. Iludida em vários níveis.
Ima olhou-a. Esperou como uma lady a autorização da que podemos chamar de outra.
_ “Ah, por favor, vou ver o pequeno José. Ele acordou, moço, não é?”
O moço disse que não, mas ela foi mesmo assim, numa sanidade inexplicável para aquele momento.
Ima era o que podemos chamar de mulher altiva, mesmo que ela não se considerasse assim. Alta, branca, de cabelo escorrido, bem alinhado. Linda, pode-se assim mencionar. De postura impecável, mas de olhar amável.
Nesse momento, dura como rocha. Em seu resplendor, adentra o quarto de Robert.
Gostaria que todos tivessem visto. Foi seu ponto alto. Não minto, quando menciono a altivez dela.
Força, era ela sim quem tinha.
Robert?
Ele chorava, frágil. Totalmente ciente da perda.
_ “Vim para lhe dar adeus, meu querido”. O ‘meu querido’ foi genuíno, sem ironia. Mostrava a energia que ela irradiava.
_ “Por favor, deixa eu explicar. Eu não consegui...”
_ “Não se dê ao trabalho. É o fim, eu sempre soube disso”.
_ “Por favor, não... Não sei se aguento”. Ele chorava muito.
_ “Claro que aguenta, Rob. Eu aguento”. Ele sentiu fundo em seu coração ao ouvir Ima chama-lo de Rob.
Ana entrou nesse momento. Olhou a cena. Robert a encarou com os olhos bem marejados.
_“O que está acontecendo, meu bem?”. Ima jamais o chamou assim.
_ “Conte a ela, por favor. Detesto mentir, não me envolva mais nisso”. A mulher, Ana,  encarou-a perplexa.
Robert a viu pela última vez, já trocando a dor de perder seu brinquedo preferido pela amargura. Aos prantos, gritou, num apelo último e lastimável.
_“Ímala”, Ima tremeu. “Não precisa ser assim. Amo você”.
Ima voltou e, ignorando completamente a faixa na cabeça do paciente, fez o que todos nós queríamos ter visto em outras situações: deu um tapa no rosto dele.
Robert nem piscou. Retesou-se apenas. Nem mostrou dor. Depois o médico que a tudo assistia atônito quis fazer uma ressonância pra checar se tudo estava bem com o moribundo, outrora também altivo, Robert.
_ “Você tem uma família para cuidar. Ame a ela”.
Daí, houve um show de choros, corações partidos, chuvas de verdades, do qual Ima apenas participou sozinha em seu quarto, enquanto preparava sua mala.
Ima separou suas poucas coisas de verdade. Embalou livros em caixas que mandaria buscar depois. Deixou todas as fotos das viagens e jantares lá intactas. Nada carregou.
Com algum dinheiro que juntou, partiu. Não olhou pra trás.
Pensou mais uma vez no nome do filho daquele que a traiu severamente. José, irônico esse nome. Talvez, para compensar toda a excentricidade do nome deles.
O fim desse relato, aparentemente comum, chega quase ao fim.
Preciso retornar a palavra para Ima, por respeito. Todavia, ressalto a singularidade da contação de história que aqui se fez, porque vem de uma mulher em seu caminho de pedras sozinha. Ressalto, antagônica e complementarmente, a universalidade de se contar tudo isso. Poderia ter sido outra Ima com outro Robert em outro caminho de pedras. 
Quais são seus pensamentos?
Como teria reagido?
É o que nos diferencia de Ima.
...
Só por um tempo, enfrentei o medo e engravidei aos 40 anos. Eu me recuperei. Ima, assim me chamo e minha recuperação é o que levo dessa vida. Meu grande amor que encontrei tardiamente, que me valoriza, chama-se Thomas e o destino não mais ri da gente, porque não me perdi e não permito que ria. Sou dona de mim. Encontrei força após tudo. E sobre isso não mais falarei. Meu pequeno Tom chora no quarto ao lado, precisa de mim e vou feliz. Conto isso, porque o amor em toda forma pode sim ser encontrado, mesmo quando se achava que se amava.   
Ima, esse é meu nome. Segui em frente, fiel a mim.
Essa é minha vida, espelhada em muitas outras contadas e, ainda em outras, nas quais a história não se ousa contar.
Obrigada por escutar.


-- Publicado originalmente sob o pseudônimo Paola Sanches no concurso de Poemas e Contos da Universidade Federal de Viçosa em 2015.


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